Textos sobre Gatos

Eles são inegavelmente apaixonantes! Mesmo quem diz não gostar (ou não ligar) prá eles, quando tem algum contato ou convivência com esses seres especiais, acaba por se render ao encantamento, ao charme, à personalidade do GATO!
Textos bem interessantes! Boa leitura!
Miaubraços,
Iridê
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Merlin e Shiva
Walcyr Carrasco
12.03.2008

Sempre amei os cães. Ultimamente, descobri também a paixão pelos gatos. Tudo começou por impulso.

Vi um gato cor de mel na vitrine de uma loja de shopping. Absolutamente imóvel. Fiquei algum tempo observando, em dúvida se era brinquedo ou ser vivo. Ao seu lado, dois outros passeavam. Finalmente, ele mexeu de leve a cabeça. “Que gato quieto!”, espantei-me.

Tive pena. Acho cruel o que essas lojas de animais fazem, deixando os bichos presos o dia inteiro em um espaço minúsculo. “E se eu comprar o gato?”, pensei. Achei loucura. Já tenho três cães. Imaginei as confusões, os miados, os latidos, as perseguições. Fui comer um sanduíche. O gato não me saía da cabeça. “Jamais farei isso!”, decidi. Terminei o sanduíche e resolvi olhar o bichano mais uma vez. E então, diante da vitrine, tive uma daquelas intuições que só ocorrem de vez em quando. “Eu preciso levar esse gato para salvar a vida dele”, refleti. Foi um sentimento forte. Entrei na loja. Perguntei o preço do gato, da casinha, da ração. Era caro. Abri a carteira e arranquei o cartão de crédito.

– Por que não compra também a companheirinha dele? – insinuou o vendedor, indicando a gatinha rajada de preto.

Dali a pouco eu estava no carro com um pacote de ração, vasilha higiênica, almofadinhas, os dois gatos numa caixa de papelão e o cartão de crédito estourado. Fui para casa. Os cães me perseguiram excitados enquanto eu fugia com os gatos para o meu escritório. Tranquei-me com eles. Um amigo apaixonado por felinos explicou:
– Eles precisam passar um tempo presos para se acostumar com a casa.

Forrei a janela do escritório com telas. Servi a ração. Em seguida, tratei de mudar o nome deles, dado pelo gatil. O dela não me lembro. Mas ele se chamava Cherry. Não achei adequado para um representante do sexo masculino. Troquei por Merlin e Shiva.

Aí descobri que ele tossia. Sem parar. Pus a mão no focinho. Estava quente.
Voei para o veterinário. Minha intuição provou-se verdadeira. Merlin estava à beira da morte. Passou um mês internado. Eu ia visitá-lo, estava sempre preso numa gaiolinha. Não me reconhecia como dono.

Shiva acostumou-se com o escritório e dormia no meio dos livros. Adorava ouvi-la ronronando ao meu lado no sofá, mordendo de leve a ponta dos meus dedos. Merlin voltou, mas não estava curado.
– Talvez seja uma doença crônica – informou o veterinário.

Um amigo indicou um especialista em gatos. Novo tratamento, com remédios em horários certos. Aos poucos, Merlin parou de tossir. E começou a demonstrar sua verdadeira personalidade, escalando mesa, estante, botando o focinho em tudo! Tão quietinho na vitrine, tão animado em casa!

O passo seguinte foi promover a integração. Coloquei Merlin e Shiva na sala, separados dos cães por uma porta-janela de vidro. Latidos. Os felinos lançaram olhares de desprezo. Dias depois, abri a porta, pronto para intervir. Os cães cheiraram. Os gatos ergueram o rabo, orgulhosos. Passei dias atento.

Até que, numa noite chuvosa, não achei Merlin de jeito nenhum. Esquadrinhei a casa toda. Fiquei encharcado no jardim. “Ele fugiu!”, concluí com dor no coração.

De manhã, a surpresa! Merlin e os três cães dormiam juntos, aquecendo-se mutuamente, como velhos amigos!

Agora, onde estou eles vão. Shiva, mais arisca, fica sempre por perto. Merlin deita-se aos meus pés. Sobe no meu colo enquanto escrevo. Definitivamente, estou perdidamente apaixonado. E sei que esse amor é para toda a vida!

Publ.13/03/08-Iridê
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SIMPLESMENTE GATOS!
Arthur da Távola

Bichos polêmicos sem o querer, porque sábios, mas inquietantes, talvez por isso…nada é mais incômodo que o silencioso bastar-se dos gatos. O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece.

O homem quer o bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência, obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias do amor. Só as saudáveis.

Lembrei, então, de dizer, dos gatos, o que a observação de alguns anos me deu.
Quem sabe, talvez, ocorra o milagre de iluminar um coração a eles fechado?
Quem sabe, entendendo-os melhor, estabelece-se um grau de compreensão, uma possibilidade de luz e vida onde há ódio e temor? Quem sabe São Francisco de Assis não está por trás do Mago Merlin, soprando-me o artigo?

Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso elefante veste saiote e dança a valsa no circo. O leal cachorro no fundo compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula.

Gato não. Ele só aceita uma relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando dele dependente, é chamado de arrogante, egoísta, safado, espertalhão ou falso.

“Falso”, porque não aceita a nossa falsidade com ele e só admite afeto com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe é próprio, que é dele e ele o dá se quiser.

O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte. Sábio e espelho. O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer.
Exigente com quem ama, mas só depois de muito certificar-se. Não pede amor, mas se lhe dá, então ele exige.

Sim, o gato não pede amor. Nem depende dele. Mas, quando o sente é capaz de amar muito. Discretamente, porém sem derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um italiano mas se comporta como um lorde inglês.

Quem não se relaciona bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então, como ameaça, porque representa essa relação precária do homem com o (próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Ele vê além, por dentro e pelo avesso. Relaciona-se com a essência.

Se o gesto de carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos secretos de agressão, o gato sabe. E se defende do afago. A relação dele é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou podemos ver. Por isso, quando surge nele um ato de entrega, de subida no colo ou manifestação de afeto, é algo muito verdadeiro, que não pode ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe, pois significa um julgamento.

O homem não sabe ver o gato, mas o gato sabe ver o homem. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há solidão, ele sabe e atenua como pode (ele que enfrenta a própria solidão de maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno ou carregadas de maus fluidos, ele se afasta.

Nada diz, não reclama. Afasta-se. Quem não o sabe “ler” pensa que “ele não está ali”. Presente ou ausente, ele ensina e manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, ele está comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir.

O gato vê mais e vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras, fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba perceber.

Monge, sim, refinado, silencioso, meditativo e sábio monge, a nos devolver as perguntas medrosas esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de criatividade e de novas inter-relações, infinitas, entre as coisas.

O gato é uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precise de promoção ou explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro e não se ilude com aparências. Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato!

Lição de sono e de musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração ioga. Ensina a dormir com entrega total e diluição recuperante no Cosmos. Ensina a espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos em todos os músculos, preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam tanto tempo ( quase 15 minutos) se aquecendo para entrar em campo.

O gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu corpo, a qual ama e preserva como a um templo.

Lição de saúde sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio, desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio.Lição de descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, com o escuro, com a sombra. Lição de religiosidade sem ícones.

Lição de alimentação e requinte. Lição de bom gosto e senso de oportunidade. Lição de vida, enfim, a mais completa, diária, silenciosa, educada, sem cobranças, sem veemências, sem exigências.

O gato é uma chance de interiorização e sabedoria posta pelo mistério à disposição do homem.

Publ.03/03/08-Iridê

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